quinta-feira, 27 de outubro de 2011

A música sem dono.

De vez em quando eu fico cantarolando a música que eu fiz pra você. Principalmente no chuveiro. Não parece mais que ela foi feita pra você. Porque ela realmente não foi feita pra você, foi feita para o que eu achava que você era. Daí como eu gostei tanto da letra eu declarei que ela não é mais sua, nem minha, nem de ninguém. Ninguém é do jeito que eu escrevi na música, embora eu achasse cegamente que o mundo fosse capaz de dar lugar a uma pessoa daquelas. É tudo um erro só, sabe? Em várias fases e no efeito dominó. É claro que existem músicas que eu fiz pra você, outras músicas que refletem melhor tudo que você se revelou.  Muito mais fiel a pessoa que você é do que a adorável máscara que você sempre vestiu. Ah, não, você não iria gostar de ler e então, por favor, não invente de entrar no meu quarto e revirar a ultima gaveta do lado esquerdo procurando meu caderninho de capa azul pra abrir exatamente a partir da página 37. Você se surpreenderia verdadeiramente (você é capaz de expressar alguma coisa verdadeiramente?) com os níveis de decepção que você me causou e como eu berrei isso usando minha compactor preta. Essas eu não canto no chuveiro, essas ficam ali, sufocadas. Assim como tudo de bom que eu, involuntariamente, ainda penso de você. Por isso eu prefiro cantar a música positiva, aquela sem dono, seja ela pra quem quer que tenha sido escrita.

sexta-feira, 22 de julho de 2011

Pilulazinhas de lembrar amor

Preguiça de ir buscar água. Preguiça ou  indisposição. Acho que são coisas diferentes, não são? Porque na verdade não é preguiça, preguiça... só não estou disposto a sair daqui. Nem pra buscar água.  Fiz uma cabana e tô aqui desde... não consigo me lembrar... mas finge que é desde sempre. De qualquer jeito tô aqui faz um tempão. Me sinto seguro. Eu sou um coração e a cabana me protege. Lá fora tem todas essas essas pessoas doentes que ficam falando do amor, do amor, do amor. Que é amor? Tá todo mundo rebolando por aí como se o amor fosse algo que te deixa feliz. Essa é boa. Não, essa é das melhores mesmo. Esses senhores só podem estar brincando comigo. Na verdade, veja bem, você tem que escolher. Ou você quer ser feliz, ou você quer encontrar o amor. Não dá pra ter os dois juntos, não. O amor é lindo, mas fode um pouco com seu coração. Por isso eu escolhi ficar aqui nessa cabana por um tempo. Sou ruim nisso de escolher ser feliz, não sei identificar  quando tô caindo na besteira. Sei que vai demorar um tempo ainda, é meio escuro aqui e de vez em quando me dá umas crises de solidão. Daí eu acendo uma esperança e leio, às vezes ouço música, às vezes fico olhando pro nada, deitado no chão com a cara pra cima e cantando duck sauce da barbra streisand. Ah, sim. Lembrei. Tô aqui desde que eu descobri que você guardou pra sempre aquela foto da gente comendo tic-tac de laranja. Cara, como saí torto nessa foto e não sei porque você amou e guardou. Vai ver porque você era todo torto mesmo. Torto por dentro. Você sempre foi viciado por essas balinhas né? Isso era tão você. Acho que nunca mais vou come-las depois disso. No final das contas, acabo preferindo a água. Limpa e sem lembranças nenhuma de nós. Pra que eu vou querer comer um monte dessas pilulazinhas de lembrar amor?  Je vous remercie, mon cher, mais vaut mieux pas. E além do mais, aqui na minha cabana drogas não são permitidas.

sexta-feira, 8 de julho de 2011

Na estação.

Ih, inflamou. Agora não tem mais jeito. Ou tem? Prende a respiração. Tem, não tem, tem, não tem, tem, não tem. Tem? Não tem. Vou procurar um médico. Não é doença, é um acidente. Eu poderia dizer assassinato, mas a decepção tá mais pra um acidente mesmo. Foi um acidente dos grandes mas só houve uma vítima. Eu. Daí ficou essa cicatriz enorme aqui no coração, e não sei, ultimamente tá coçando e acho que inflamou. Tá doendo bastante também. Ah sim, a culpa do acidente foi minha. Não sei de que jeito, a culpa fica sempre toda pra mim. Eu já tô meio debilitado ainda mais agora nesse processo de inflamação e essa culpa é meio pesada demais. Vou mandar mamãe comprar biotônico fontoura. Eu te vi ontem. Você tava bem lá, naquele mesmo degrau. Quando eu reparei em você, você desviou o olhar rapidamente e fingiu estar procurando alguma coisa no celular (provavelmente a sua vergonha, que você deve ter convertido em mp3). Mas deu pra concluir que você esteve pensando em mim esses dias. Você pensa, não pensa? Então, mesmo com a sua cabeça baixa eu acenei pro seu cabelo castanho escuro e quando eu virei as costas senti seu olhar na minha nuca e me virei de repente. Daí entrou um senhor na minha frente, acho que era o tal de um senhor orgulho, muito velhinho tadinho mas com uma força que só você vendo pra acreditar. Ficou me dizendo um monte de coisas, inclusive que se eu me atrevesse a ir falar com você ele iria embora e nunca mais voltaria. E eu com isso? Já conhecia ele de outras vidas mas a verdade é que ele tem um jeito todo autoritário que me incomoda. Dei um empurrão nele, e quando fui atrás de você, não te vi. Quer dizer, te vi, mas você tava brigando com aquele seu velho amigo arrependimento. Odiei você. Custa dar um aperto de mão no rapaz e  pedir desculpas e continuarem a amizade em paz? Mas não. Você tava lá chacoalhando os braços e cutucando seu piercing na orelha de vez em quando como sempre fazia quando tava bravo. Quer saber? Percebi que ainda ia demorar um bom tempo pra vocês se entenderem e eu que não ia ficar responsável por fazer as coisas se acertarem entre vocês. Isso é tarefa sua, só sua. Cresce. Daí começou a chover bem forte e eu tive que me mexer. Mesmo assim me molhei e não achei ruim. Na verdade até andei um pouco com a cara pra cima pra molhar bem o rosto e as pessoas confundirem minhas lágrimas com água da chuva. Sentei no degrau. Não o seu degrau, eu digo outro degrau. Bem longe de você, bem escondido, só pra ficar pensando. Nessa hora o sr. orgulho voltou com uma cara de "o que eu faço com você, bernardo?" e acendeu dois cigarros. Um pra ele e um pra mim. Ficamos fumando e eu pedi desculpas pela fraqueza e prometi nunca mais empurrar ele daquele jeito. Acho que engoli um pouco de água junto com os tragos do cigarro. Tudo se misturou e caiu no meu coração e é por isso que tá inflamado. Não porque eu te vi e quase fui falar com você, imagine. Não. Não mesmo.

sexta-feira, 1 de julho de 2011

Da próxima vez vou pra Paris.

De vez em quando eu pego meu suéter, visto do avesso por debaixo da capa, calço minhas galochas e uso aquele guarda-chuva azul pra dar uma volta no passado. São muitas lágrimas. Passo pelo meu e-mail e releio coisas que eu costumava te mandar e que você costumava me mandar também. Frases, fotos, textos, músicas. Nós sempre fomos muito maduros durante todo nosso relacionamento e tínhamos ótimas discussões de relacionamento por e-mail. Para outros casais isso devesse dar errado, mas com a gente funcionava muito bem. E aí, todas as nossas brigas (por e-mail, telefone ou pessoalmente) sempre acabavam com palavras doces e sentimentos de alívio. Quando termino de reler esses e-mails eu sinto tudo, menos alívio. A dor de saber a intensidade do nosso amor, ou do que eu pensava que era nosso, me machuca. Me magoa. Me deixa pra baixo. Devo comprar galochas mais resistentes, essas mal aguentam uns soluços de nada... Eu não devia falar isso, mas ainda tenho todos os bilhetinhos que você me escrevia em guardanapos de papael, sempre que a gente almoçava junto naquele restaurante perto do seu trabalho. Qualquer dia vou queimar todos, um por um, numa espécie de sacrifício por renascimento. Por enquanto apenas deixo eles molhados, gota por gota. Uma volta pela casa e fotos perdidas. Lembrei daqueles dias na praça, nossos quase-sexo com os carros passando e enxergando tudo que nós fazíamos. Lembrei dos nossos abraços e nossa obsessão conjunta por chiclete de canela. Vou precisar de uma capa de chuva mais resistente também... Fico impressionado como mesmo após tanto tempo as coisas continuam vivas. Não vivas de um jeito "uau". Vivas de um jeito que eu acho que jamais vou esquecer. O problema em fazer esses passeios pelo passado é que eu sempre acabo voltando semi-morto da viagem. E também é muito caro, sabe. Daí eu não tenho forças nem pra comer. Fico só ali, na minha cama olhando pro teto e interrogando tudo e nada ao mesmo tempo...

segunda-feira, 30 de maio de 2011

Verde Amarelado Fluorescente

Eu nunca gostei de caneta marca-texto. Você adorava. Se eu deixasse, rabiscava todas as paredes do meu coração com esse verde-amarelado-fluorescente. Rabiscava até cansar. Rabiscava até a ponta quebrar. Rabiscava até a tinta acabar. Rabiscava as paredes, o teto, o chão, meu cabelo e narigão, minha bochecha e meu pezão. Mentira, eu calço 38. Mas rabiscava mesmo assim, sendo grande ou pequeno, rápido ou lento, até a palma da minha mão, chamando atenção. Você deve ser assim desde que nasceu, imagino que o hospital inteiro deve ter ouvido você chorar. Descobriu cedo que quanto mais baixo você falar, menos vão te escutar. Eu aprendi que quanto mais baixo eu falo, mais as pessoas querem saber de mim. Você é um marca-texto, eu sou um grampeador. Quero juntar todos, bem perto de mim. Juntei você, quem diria... Uma vez um velho me falou que o amor morre jovem. Talvez você não quisesse deixar seu amor morrer jovem, talvez você nem soubesse o que é amor. Aí a tinta acabou. E eu te falei, exatamente como em The Holiday, que você nunca me amou e sim a idéia de estar comigo e todo esse papo blasé porque eu insistia em converter nossas verdades em dramas clichê. Ainda guardo seus desenhos só porque eu nunca gostei de caneta marca-texto e você foi uma exceção.

sexta-feira, 6 de maio de 2011

Maybe, I'm the idiot.



Qual o problema, Bernardo? Teve um dia difícil? É que você colocou o sinal de "não perturbe" na porta. Perdeu seu lugar na fila denovo? Que pena. Você parece nunca mais querer dançar. É uma longa descida nesta montanha russa... o carrinho da última esperança saiu dos trilhos, e você está nele. Ouvi dizer que está contando carneirinhos novamente, Bernardo. Do que adiantar continuar sonhando? Ouvi dizer que está perdendo peso de novo, Bernardo. Já se perguntou para quem o está perdendo? Você está na velocidade máxima, querido, e na direção errada. Há um pouco mais de mágoas se este é o caminho que você quer seguir. Por favor seja sincero Bernardo, você está feliz? Por favor não censure suas lágrimas. Você é um  doce guerreiro e está em seu caminho. Você é o último grande inocente e é por isso que eu te amo

Então aproveite este momento, Bernardo, e seja mais egoísta. Não se preocupe com os carros que vão e vem. Tudo que importa é sua liberdade. Então se agasalhe meu querido, e não se molhe. Me conte, qual o problema, Bernardo?

quarta-feira, 27 de abril de 2011

Hoje não, mas ano que vem, certeza.

O que eu mas gosto em dias frios é que você usa sempre aquele seu suéter azul. Parece que só tem ele ou é presente de avó. Acho que você nunca me falou da sua avó, mas ela deve ser do tipo que faria um suéter azul de lã pra você, embora sua mãe seja do tipo contrário. Queria saber se ela ainda está com aquela mania de colecionar etiquetas de marcas. Ela sua mãe, não sua avó. "Eu tiro porque pinica, mas guardo todas". Seu suéter azul não tem etiqueta, e aposto que foi sua mãe quem tirou. Eu sei bem disso porque no dia que você me emprestou o moletom do seu irmão, estavas usando seu suéter ao contrário e como Alanis em All I Really Want eu lhe disse:

"Que apropriado".

Eu amo seu suéter azul, mais do que o moletom do seu irmão que eu só amo um pouco porque é a ultima lembrança que tenho de você. Seu irmão entrou de tabela na história. Talvez o dia em que eu te ver denovo você esteja usando o suéter outra vez, e esteja rindo daquele jeito que eu amo. Quando você ri você fecha os olhos e suas bochechas ficam meio vermelhinhas, e quando acaba de rir fica meio sem graça por ver que eu estivera o tempo todo observando admirando seu riso. Olha pro chão. No dia em que  você vier aqui em casa como nos velhos tempos vou te oferecer um café e perguntar se quer casar comigo. Você me dirá "hoje não, mas ano que vem, certeza" e este será o tempo perfeito para eu preparar todos detalhes e tecer eu mesmo, um novo suéter de lã pra você.

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